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prosa com poeta: Marília Calderón

pelos vagões do metrô, nos teatros, nas ruas, etc. os passos de uma artista que caminha por diferentes palcos pra apresentar diferentes formas de se expressar.

(foto: Adri de Maio)


Vitor: você enviou fotos vestida num personagem clown. como é lidar com o ridículo?

Marília: Honesto, porque somos ridículos mesmo.


Vitor: o que é ser - ou estar (to be) - uma artista que se apresenta no metrô e nas ruas?

Marília: Obrigada pelo verbo estar, gosto muito. É estar nas margens, fronteiras, sobretudo da escuta alheia. É contar muito mais com o efeito de fato que a arte pode provocar do que com a glamourização do artista que, nesse caso, não há.


Vitor: lembro de sair pra beber com amigxs que se apresentam na rua e achava interessante vê-lxs pagar as contas com moedas e notas de baixo valor. em alguns lugares, como em pedágios, as moedas são valiosas. mas em outros não são tão bem recebidas. qual o peso da moeda nesse cenário em que tudo caminha pro virtual? você pensa que um dia haverá um aplicativo pra remunerar artistas que se apresentam nas ruas?

Marília: As moedas, ainda mais em saquinhos plásticos, como tantos artistas de rua carregam, são vistas por muita gente, nota-se, com verdadeiro desprezo, como sinal de atraso e pobreza. Como se o progresso e a riqueza fossem atestados pelo avanço tecnológico e o acúmulo. Haverá aplicativo até pra falar com Deus (se já não há), como canta o Gil nesse último álbum. Isso tá fácil. Difícil é tecnologia humana, é empatia pelos sofrimentos alheios e capacidade de abrir mão de privilégios. Esse aplicativo é que tá faltando.


Vitor: nas biografias dos meus trabalhos digo que sou um artista não acadêmico. lembro que numa época você estava confusa, ou indecisa, sobre continuar a carreira acadêmica. me corrija se estiver enganado quanto a essa indecisão. mas faço essa lembrança pra questionar qual o peso da vida acadêmica numa obra artística ou na biografia dx autor(a) dessa obra artística?

Marília: Depende de qual vida acadêmica estamos falando. Na academia, como em qualquer lugar, há pessoas com trajetórias e obras transformadoras e pessoas que não sabem o que estão fazendo ali. Eu não sabia o que estava fazendo ali, por isso saí. Admiro e respeito muito os acadêmicos que sabem fazer aquilo valer a pena, porque para mim estar ali era meio parecido com estar morta. Talvez simplesmente não fosse o meu desejo, porque queria estar mais próxima das pessoas da rua, de fato e não em teoria.


Vitor: "só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental" disse Roberto Piva. De onde vem sua poesia?

Marília: Do meu inconsciente. A minha "escola", na qual aprendo a desobedecer meus opressores, a cada dia mais se torna a psicanálise. Recentemente voltei à análise num projeto chamado "Clínica aberta", na Praça Roosevelt, e está sendo muito especial pra mim ser atendida na rua. Essa semana começo um grupo de estudos de Freud. O divã pra mim sempre foi muito parecido com a poesia, pois a experiência mais próxima da liberdade que ela traz.


Vitor: minha vó está doente. convive numa casa com um namorado imaginário que tem o mesmo nome do meu avô que faleceu há dez anos mais ou menos. eles separaram no início dos anos noventa. nós que vivemos esses tempos de experimentar diversos relacionamentos se um dia ficarmos doentes nossa casa pode vir a ficar super lotada. como você lida com o passado?

Marília: Muito boa pergunta. Meu passado já é super lotado. Não só de amores, mas de experiências malucas, mudanças infinitas, utopias, traumas, todos os cursos que se possa imaginar. Me dá muito trabalho. Talvez por isso a poesia e o divã sejam tão necessários, uma maneira de organizar um pouco tudo isso. "Quem não se lembra de seu passado está fadado a repeti-lo", dizia o filósofo Santayana. É por isso que eu amo o passado e estou sempre lembrando dele, porque a vida é uma só e não quero ficar me repetindo.


Vitor: muito boa resposta. e a música? o que é a música na sua vida?

Marília: Música é movimento. Só neste sentido posso me considerar musicista. Foi um tal de Tom Heany que disse não haver música sem movimento, não fui eu. Mas gostei.


Vitor: É como o conceito de utopia de Fernando Birri que Eduardo Galeano cita numa entrevista que diz que utopia é o horizonte e a cada dez passos que damos em direção ao horizonte dez passos mais longe ele fica, então a utopia serve pra caminharmos. então pergunto: o que é um delírio?

Marília: Que pergunta difícil, heim. Assim na lata eu apostaria que delírio é uma resistência em renunciar ao sonho, quando se crê inconscientimente que ele é iREALizável.


Vitor: então, pra terminar, qual seu sonho?

Marília: No sentido onírico, cobras. Tenho sonhado com cobras venenosas de todas as cores e tamanhos, verdadeiros festivais. No outro sentido, mas pegando o gancho, meu sonho é que sobrevivamos às cobras, as quais não julgo, pois nada mais estão fazendo do que sendo elas, cobras, mas temo, pois sua falta de empatia pode nos ser fatal.

assista o vídeo do novo single: à deriva

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